Uma estratégia micro para complementar a gestão macro de águas em Lisboa

Não é raro que existam em Lisboa e um pouco por todo o país dias com intensas precipitações que levam até ao limite (e, por vezes, o ultrapassaram) as infra-estruturas e a capacidade de resposta das autoridades. Mas os fenómenos climáticos extremos vieram para ficar e serão o “novo normal” ordinário decorrente do agravamento das condições climáticas que se esperam para as próximas décadas.

Os fenómenos atmosféricos extremos vieram para ficar. E embora a situação de Lisboa tenha melhorado consideravelmente (sobretudo na Baixa Pombalina) mercê de nos últimos dez anos Lisboa ter plantado 400 hectares de áreas verdes com recurso a pouca água e criado novas zonas incluem bacias de retenção para minimizar o impacto das grandes chuvadas as alterações climáticas exigem mais e mais depressa.

Com efeito, não escasseiam os estudos que demonstram a autêntica explosão dos custos com desastres naturais a partir da década de 1980 (de 50 mil milhões globais de USDs para 180 actualmente dos quais 75% apenas com fenómenos climáticos extremos isto segundo um estudo promovido por várias universidades europeias). Este estudo reforça a necessidade de integrar uma estratégia de mitigação de riscos em todas as iniciativas autárquicas, no planeamento e na aprovação de construções ou nas autorizações para reconstruções urbanas.

A conquista por Lisboa do prémio de Capital Verde Europeia 2020 anunciada pelo Comissário Europeu do Ambiente, Assuntos Marítimos e Pescas representa uma oportunidade para desenvolver estas respostas e para um futuro que – a esta distância – parece ainda demasiado sombrio. Importa continuar a apostar na pedonalização de amplas zonas da cidade mas incorporando sempre uma estratégia de construção de pequenos espaços verdes (microjardins urbanos) que possam servir de reforço ao sistema de sombras da cidade capaz de mitigar os efeitos das ondas de calor, um fenómeno que se impôs na Europa desde a onda de calor de 2003 em que morreram, apenas em França mais de 14 mil pessoas, sendo a quantidade de mortes tão elevada que nos arredores de Paris chegaram a ser usadas câmaras frigoríficas para guardar cadáveres.

Mas isto foi o macro. Falta agora o micro. Todos os jardins devem ser convertidos em espaços verdes de baixo consumo de água e os grandes tapetes verdes (como o da Alameda que custa mais de 100 mil euros por ano) pensados e criados noutras épocas em que não havia limitações ao consumo de água são hoje anacrónicos e exigem reestruturação com a colocação de árvores nas suas margens (que já existiram), de caminhos pedonais marginados por plantas de baixo consumo de água. As duas alterações, simples e relativamente económicas podem pagar-se a si mesmas num par de anos na poupança de água de rega e aumentar a retenção de água nos solos. A par de uma intervenção nos grandes jardins importa criar novos pequenos jardins de rua e aumentar nas principais vias de Lisboa e, em grande escala, a densidade de plantação de árvores com caldeiras generosas ou reformuladas (ver alguns maus exemplos na João XXI).

A Câmara Municipal de Lisboa está a planear uma rede para aproveitar a água reutilizada com o objectivo de “fechar o ciclo da água e a tentar não gastar água potável em coisas desnecessárias como lavar ruas e regar”. A rede deve estar concluída em 2025 mas já a partir de 2020 deverá estar a funcionar na frente ribeirinha de Lisboa, no Bairro Alto, Parque Eduardo VII e na Cidade Universitária. Esta rede deveria incluir “trincheiras de infiltração” para aumentar a retenção de água e eliminar poluentes (como óleos e outros resíduos) da água. Todos os edifícios de Lisboa, mas sobretudo os novos e os reconstruídos devem incorporar “telhados verdes”: concebidos para captar e reter águas pluviais com alguma capacidade para armazenagem de água para regas dessa superfície e, sobretudo, para reduzirem as temperaturas médias dos apartamentos e, consequentemente, uso de sistemas de ar condicionado. A autarquia deve encontrar formas de tornar obrigatória a instalação destes telhados em todos os edifícios onde tal seja tecnicamente possível e criar uma rede municipal de colecta destas água para as integrar na rede que tenciona ter montada até 2025.

Esta rede municipal deve também receber águas de pavimentos permeáveis (p.ex. em asfalto poroso) concebidos para permitir a infiltração de alguma água a partir da sua superfície e evitar assim as acumulações que são comuns em tempo mais pluvioso com os conhecidos efeitos no pavimento e na circulação automóvel. Embora este tipo de pavimento seja mais comum em parques de estacionamento nada obsta (além do preço de instalação que pode ser o dobro do pavimento normal) a que seja coloca em vias urbanas secundárias ou, até, em vias de circulação intensa. De sublinhar que estes pavimentos em vias urbanas secundárias podem também de servir de espaço de crescimento para o sistema de raízes das árvores.

Mas nesta abordagem “micro” há um componente essencial: O armazenamento das águas numa rede dispersa mas com grande capacidade global de pequenos reservatórios que sejam capazes de captar grande parte das águas pluviais por forma a permitir o seu uso subsequente em regas ou na limpeza das ruas (realizada pelas Juntas de Freguesia as quais poderiam também instalar sistemas deste tipo sob os passeios e jardins que tutelam).

Uma estratégia deste tipo, multipolar, diversificada e integrada poderia fazer uma grande diferença na qualidade e eficácia da gestão da água em Lisboa e noutras cidades da malha urbana nacional e contribuir para a mitigação dos efeitos mais graves das alterações climáticas.

Rui Martins