Como a COVID-19 um dia o céu irá cair sobre as nossas cabeças

Vivemos tempos absolutamente excepcionais com a mais grave crise sanitária desde a “Gripe Espanhola” que, entre 1918 e 1920, infectou mais de 500 milhões de pessoas, ou seja, um quarto da população global da época. Julgávamos viver imunes a este tipo de crise de grande escala, protegidos pela ciência e pela medicina moderna, quando um pequeno ser vivo (o SARS-CoV-2) nos veio recordar que, afinal, continuamos vulneráveis.

Se nas nossas vidas já podemos contar a grande crise financeira de 2007/2008 e, agora, a Pandemia de COVID-19, será que iremos somar a esta triste lista uma terceira: um grande impacto meteórico? Como as duas primeiras, esta crise é inevitável (ou ainda mais) e a verdade é que estamos ainda menos preparados para a antecipar, impedir e mitigar do que estávamos para qualquer uma das duas anteriores.

Todos os dias há milhões de pequenos meteoritos que colidem com a Terra: quanto menores: mais comum é a sua queda. Isto quer dizer que colisões com asteroides de grandes dimensões, por exemplo de um 1 Km de diâmetro ocorrem, em média, uma vez em cada 500 mil anos. Um destes asteróides, com esta escala de grandeza (cerca de 10 Km) foi o que provocou a “grande extinção” do Cretáceo. Mas estes fenómenos não são assim tão raros. Asteróides de pequenas dimensões, de entre 5 a 10 metros de diâmetro, chegam à atmosfera em ciclos anuais com a mesma energia da bomba nuclear de Hiroshima mas desfazem-se ao atravessar a atmosfera e apenas pequenos fragmentos chegam ao solo ou, simplesmente, não chegam de todo. Asteróides com 50 metros ou mais colidem com a Terra em cada mil anos (terá sido o que se passou em Tunguska, em 1908) e há centenas de crateras que testemunham colisões desta escala, ou até maiores, um pouco por todo o mundo. Mas a maioria não deixou qualquer testemunho quer pelo efeito da erosão quer porque a maioria da superfície terrestre está coberta de água.

Actualmente, a maior ameaça meteórica conhecida (porque certamente que há mais: por descobrir) é o Apophis com os seus notáveis 320 metros de diâmetro. Apophis tem uma elevada probabilidade de impacto de 1 para 17 a 13 de abril de 2029… Estas probabilidades foram depois corrigidas para 1 em 150 mil em 2068 mas há outro asteróide potencialmente perigoso: trata-se de Bennu, com 525 metros de diâmetro que, em 2175 e 2199, terá 1 possibilidade em 2700 de colidir com o nosso planeta.

E mesmo se Apophis ou Bennu não colidirem connosco a aproximação será tão grande que é provável que sejam atraídos para a Terra e que essa colisão se concretize na próxima passagem com uma energia de impacto estimada em mais de mil megatoneladas de TNT e uma zona de destruição (para Apophis) entre os 700 a 1000 Km de diâmetro mas as consequências na ionosfera e na atmosfera seriam globais e durariam alguns dias. Estima-se que todos os materiais combustíveis seriam incendiados num raio de perto de 200 Km e que uma vaga de incêndios teria, pelo menos, o dobro desta extensão.

Perante a escala da ameaça representada por Apophis ou por um dos seus irmãos de menor dimensão e por descobrir o que podemos fazer? O plano já existe e foi delineado pela NASA começa pelo lançamento de uma missão robótica de reconhecimento para recolher mais dados. Com estes novos elementos seria possível lançar uma ou várias naves que colidiriam com o asteróide alterando a sua órbita ou acoplando no mesmo ligando propulsores que aumentariam a escala deste efeito. As duas abordagens seriam tanto mais eficazes quanto mais precoce fosse a sua detecção.

A melhor resposta depende muito da natureza do objecto: se este for pouco sólido um impacto ou explosão (química ou nuclear) pode ser suficiente para o dispersar desde que não esteja já demasiado perto da Terra. Um efeito ainda melhor pode ser obtido através da colisão de várias sondas com o objecto, em sucessão e em posições diferentes, ao longo de uma janela de tempo sendo que alguns poderão ser antigos satélites desactivados que afastarão o objectivo apenas pela energia cinética dissipada na colisão.

Seja qual for o próximo asteróide de grandes dimensões ou quando essa colisão ocorrer é inevitável que esta ocorra e que tenha consequências globais e locais de grandes consequências, mesmo para objectos com – apenas – algumas centenas de metros de diâmetro. Se se tratar de um objecto com quilómetros, dependendo do local e do ângulo, podemos estar perante um evento que coloca em risco a vida no planeta, destrói um continente ou um conjunto de países. A escala desta ameaça já deveria ter convencido a Humanidade a montar um sistema global de resposta e deflecção destas ameaças globais ou – por comparação – a actual Crise COVID-19 parecerá irrisória quando o céu cair sobre as nossas cabeças. Literalmente.

https://casadasaranhas.com/2020/05/25/como-a-covid-19-um-dia-o-ceu-ira-cair-sobre-as-nossas-cabecas/