O Livre deixou de me interessar

1.
O Livre é um partido liderado por Rui Tavares, provavelmente o mais interessante intelectual de esquerda da sua geração. Nos últimos anos, como colunista no Público, professor, conferencista e deputado europeu (eleito pelo Bloco de Esquerda), tem sido exemplar. Inteligente, culto, argumentativo e com capacidade de fazer pontes com gente diferente. Fundou o Livre e foi cabeça de lista em algumas eleições, os resultados ficaram aquém da sua manifesta qualidade.

2.
O Livre elegeu (com toda a justiça) uma deputada que tem dado que falar. Até à última campanha eleitoral nunca ouvira falar de Joacine. Não sabia da sua história exemplar, uma história tão parecida à de tantos e tantas que tiveram de lutar para ter o seu espaço, gente a quem a vida obrigou a saltar obstáculos. E para acentuar a desigualdade a sua cor de pele, negra. Pareceu-me bem quando a ouvi pela primeira. Estranhei a gaguez, mas fiquei curioso de a ouvir mais.

3.
E ouvi-a mais. Um discurso que não tinha a ver com o de Rui Tavares. De repente o Livre passava a ser outra coisa. Um partido de extrema-esquerda com um discurso agressivo, radical, um discurso que separava de forma agressiva as águas entre “nós” e “eles”. Um Bloco de Esquerda de há dez anos, revolucionário e a falar para as franjas do sistema.

4.
Joacine defendeu uma “esquerda feminista radical”. Disse que o seu partido é a “esquerda antifascista e anti racista” (não há outros partidos que o são?). E sobre a possibilidade de um entendimento com António Costa disse na noite eleitoral: “Ele que diga o que quer…”, colocando-se fora de qualquer entendimento.

5.
Entretanto um bando de maluquinhos lançou uma petição por causa de uma história de uma bandeira da Guiné Bissau, qualquer coisa do género. E ontem um grupo de pessoas, ao que se sabe 50, juntou-se em resposta à frente do Parlamento numa ação de apoio a Joacine. E contra o racismo e a homofobia. Meteu pena. Pena também que o Livre se tenha transformado numa outra coisa. Pode interessar a muita gente, mas a mim deixou de interessar.

6.
Tenho sempre dúvidas sobre os que não parecem ter dúvidas. Sobre os que acham que inventaram a pólvora. Sobre os que acham que são os mais puros, os menos racistas, os que mais defendem a igualdade do género, os que mais sofreram, os mais bonitos, os mais inteligentes, os que sabem a verdade, os que nos agridem com a sua sabedoria ou superioridade moral.

Luís Osório