O novo Governo e o atraso português

O novo Governo que foi anunciado deixou de ser um Governo da família socialista para
passar a ser um Governo de compinchas do Primeiro Ministro, um Governo pronto
para a luta da manutenção do poder, agora que não pode contar com a maioria da
geringonça no Parlamento. É um Governo para servir o Partido Socialista, com
seguidores silenciosos de António Costa, mas sem as ideias e as competências que
Portugal precisa para não continuar a ser ultrapassado pelos outros países da União
Europeia.

De acordo com um relatório recentemente publicado pelo Banco de Portugal há dois
períodos de convergência com a União Europeia, o primeiro de 1960 a 1995 quando
os 15 países que aderiram à UE, incluindo Portugal, registaram uma aproximação
bastante rápida entre os países mais pobres e os mais ricos. Depois, entre 1995 a até
hoje, a convergência continuou, mas apenas em relação a todos os 28 países da União
Europeia, isto é, incluindo os países mais ricos cujas economias crescem menos. Entre
os quinze mais pobres, os do nosso campeonato, a convergência deixou de existir.
A partir dos anos 90 iniciou-se um processo de estagnação da economia portuguesa.
Assim, em 1995 o PIB per capita português em unidades de poder de compra, que é o
indicador utilizado para medir a riqueza do País, representava 79% da média da União
Europeia, em 2018 tinha descido e representava apenas 76%, isto é, menos do que
vinte e três anos antes. Ou seja, durante este período, que é demasiado longo, as
famílias portuguesas ficaram em média mais pobres. Como se isso não bastasse,
muitos dos quinze países mais pobres ultrapassaram Portugal, Eslovénia em 2002,
República Checa em 2007, Malta em 2010, Eslováquia em 2012, Estónia em 2014 e a
Lituânia em 2017 e a Irlanda já nos tinha ultrapassado há muito. Apenas a Grécia e a
Espanha tiveram um comportamento semelhante a Portugal, mas sabemos que a
Espanha tem hoje um nível de vida muito superior ao nosso e já se aproxima dos
países mais ricos. Quanto à Grécia, sabemos da má governação e da corrupção dos
partidos no poder, nomeadamente do PS grego, também controlado por uma família,
razão porque quase desapareceu das eleições que elegeram o actual Seryza.

Os portugueses terão de se perguntar qual a razão porque durante vinte e três anos
Portugal se atrasou relativamente aos outros países pobres que aderiram à União
Europeia. É o que pessoalmente tenho explicado em centenas de escritos e de
intervenções públicas, nomeadamente: (1) temos uma economia dual em que uma
metade concorre muito pouco ou nada para a produtividade e para a criação de
riqueza e não exporta; (2) o que resulta do muito baixo nível de escolaridade média
dos portugueses devido aos governos apostarem na universidade e não nas creches e
no pré-escolar, afim de evitar que o ciclo vicioso da ignorância se reproduza no seio
das famílias pobres; (3) a preferência dada ao mercado interno e aos bens não
transaccionáveis, o consumismo da metade mais rica da sociedade, com a ausência de
políticas destinadas a potenciar a exportação – a mais baixa dos países da nossa
dimensão – são factores que impedem o crescimento da economia como um todo
coerente; (4) acresce o privilégio dado pelos governos portugueses às grandes
empresas do regime que controlam os sectores não transacionáveis da economia e
praticam preços superiores aos preços internacionais, como a energia,
telecomunicações e serviços; (5) um Estado omnipotente, gordo e caro, que consome
uma grande parte da riqueza nacional; (6) a corrupção.

Como é óbvio tudo isto acontece porque sucessivos governos, incluindo o actual, são
parte do problema e por interesse próprio dos partidos, por vezes por ignorância, mas
sempre por força dos erros cometidos, pelo engano a que os portuguesas são
conduzidos em relação à verdadeira situação do País e às decisões tomadas. Os
governos são constituídos normalmente por uma classe de pessoas escolhidas pela
fidelidade ao chefe, deixando sistematicamente de fora as melhores cabeças, os mais
honestos e os mais experientes dos cidadãos portugueses, pessoas que todos
conhecemos, muitos dos quais são exemplos de vida útil e honrada.

Ou seja, muitos dos melhores homens e mulheres, cujas vidas são exemplos de
conhecimento e de sabedoria, são frequentemente acusados pelo poder político de
pessimistas, miserabilistas e ressabiados. Muitos cansaram-se de denunciar os erros e
de escrever e falar sobre a situação política portuguesa, ou de propor alternativas à
governação. Muitos foram expulsos dos meios da comunicação social para dar lugar
aos comentadores de serviço que estão por todo o lado e usam a comunicação social
para ganhar dinheiro e subir na carreira política. A política portuguesa está cheia de
pessoas assim e, por isso, não nos podemos admirar de Portugal estar cada vez mais
na cauda da Europa.

18-10-2019
Henrique Neto